Tudo é tão distante…

Para onde vão os sonhos, quando são abandonados por pura covardia? Eu os sufoquei na calada da noite, onde todas as sombras pareciam demônios à espera de um único deslize meu. Eu tive tanto, tanto medo de tudo e acabei com as mãos cheias de nada. Eu devia saber, mas não me ensinaram como esquecer, como seguir sem olhar para trás, como não se arrepender. E eu me arrependo, todos os dias. Entendo que, às vezes, é tarde demais para voltar atrás. Tudo agora parece tão longe, tão distante é o som da tua voz. Será que alguém te perguntou como foi o seu dia? Temo que não…

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Desconheço a autoria da imagem.

Então você me sorriu e me salvou de um mundo comum. Deixou no meu caminho um rastro de flores, feito um jardim plantado para florir em qualquer estação do ano. Que prova maior eu poderia ter de sua devoção? E eu, que sempre acreditei em milagres, pude ver um de tão perto, se materializando intensamente em abraços e beijos, a comunhão perfeita de dois corpos em estado de graça.

Quantas vezes rezei sobre o seu corpo? Mas o que seria Deus, senão, o amor encarnado? E lá estava você, me olhando de um jeito tímido e doce, como se fizesse uma prece interior, dizendo nas entrelinhas que me adorava tanto. Só eu ouvia! E bastava… Nos bastamos por muito, muito tempo.

Eu falei, não falei? Todo milagre é um presente.
E você sempre será o meu.

 

Seria fácil…

Seria fácil descobrir se posso ainda alcançar o infinito. Bastaria eu medir a profundidade dos dias, de todas as distâncias que teremos, de hoje até o fim de nossas memórias mais doces. Seria fácil perceber que eu não suportaria o infinito assim, e que ele perde, então, todas as suas propriedades curativas, se não estou ao teu lado. O infinito só faz sentido dentro do teu abraço. Agora, nem nós, nem laços. Só o vazio das tardes silenciosas. Um vento forte bagunçando os meus cabelos que, agora, tem o tom dos girassóis de Van Gogh e toda a sua tristeza azul. E pensar que colidimos como estrelas indefesas, embora de propósito, criamos um céu só nosso e todas aquelas constelações perfeitas. O uni-verso se fez poesia para os teus olhos e colheu de tua boca o riso mais puro. 

Percebeu? Eu nunca vou conseguir falar de amor sem citar o teu nome nas entrelinhas…

Estilhaços…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Eu fiquei acordada a noite toda, não fechei os olhos sequer um minuto. A vida passando assim, em câmera lenta na minha mente, como em uma tela de cinema, mas só havia um espectador: o meu medo. Eu sei, eu tento lutar pelo o que é certo, mas o que é certo afinal de contas? A vida não vem com um script e eu não consigo mais ter uma imaginação assim tão fértil. Me conta, então, depois daquela esquina… o que há? O que tem por trás desses olhos que me olham sem me ver? Quem estará lá por mim quando eu acordar de um pesadelo qualquer? Como suportar as lágrimas, quando a imagem do seu rosto teimar em surgir no nada na minha frente? Eu era boa em acreditar que tudo ia ficar bem, você se lembra? Eu realmente era boa nisso, mas agora, agora eu não sei mais no que sou boa. Eu busco a paz e todo dia preciso vencer uma guerra aqui, dentro de mim. Então, que paz é essa que eu cultuo? A que Deus eu sirvo? Eu quero tanto a minha vida de volta… aquela em que você não existia, porque assim eu não saberia o quanto posso ser feliz. E tudo seria tão fácil… Mas agora tudo se partiu em milhares de minúsculos pedaços. E eu não consigo mais juntar o que sobrou de mim.

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Desconheço a autoria da Imagem.

Ontem eu não pude encarar a lua. Ela estava lá, tão cheia de si, tão esplêndida, entre o escuro e o nada… e eu? Eu aqui, pensando que talvez teus olhos estivessem pousados nela também (a pensar em mim?) e, por raiva ou medo, não quis que os nossos olhos se cruzassem de novo. Tão longe, mas tão perto, sempre. A imensidão do céu soturno me lembrou do quanto sou pequena e tola, do quanto ainda te amo, não importa a fase da lua.

O amor é isto:

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Desconheço a autoria da imagem.

Uma história inteira feita de adjetivos, conjugados como se fossem verbos no modo indicativo. Certezas que ela desejava ter, mas desejos não significam (quase) nada. Tinha nos ouvidos, ainda, o som de algodão daquela voz de entardecer. Escurecia por dentro, toda vez que pronunciava o nome dele em segredo, numa ausência de sol que fazia medo.

Cantava alto para fingir que não estava só, mas a solidão fazia nascer nela, flores amarelas. Não era uma cor bonita, mas estava cansada demais para criar novas ilusões. Sorriu triste e pensou na falência múltipla dos sentidos. Fechou os olhos e se concentrou numa chuva de ruídos que vinha da rua. Imaginou ser barulho de cachoeira ou algo assim e, por um minuto, sentiu-se feliz de novo. Depois, abandonou-se num choro sem precedentes, até se lembrar de novo daqueles lindos olhos escuros. Sorriu por dentro e se iluminou, como se um raio a atingisse em cheio.

O amor é isto: uma incompetência absurda para desistir.

Ainda somos…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Uma noite inteira com um rio fluindo nos olhos. A íris tonta da tua imagem perfeita, flutuando às margens da imaginação. Feixes de memórias agitam o coração, enquanto a garganta sucumbe ao desejo de gritar todas as palavras não-ditas. Ainda somos essa intensidade perdida no olhar de um poeta? Aviso de tormenta: não quero te sufocar com o meu torpe amor. E, depois, quem senão tu, para acordar o dia nos meus olhos?

 

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Desconheço a autoria da Imagem.

A noite chega tingindo o horizonte de um pálido azul-doente. O sol se esconde e pequenas estrelas ensaiam um brilho tímido. Eu observo a paisagem, como se não pertencesse a ela, como se fosse um quadro na parede do tempo, distante e imóvel.

(Os olhos se inundam de lágrimas mansas, que não caem).

Então, percebo o quanto é bonito isso, de chorar por dentro, como se o que eu sinto fosse um rio que lentamente percorre o caminho que leva ao encontro do mar. Desaguar e me esquecer que toda ausência é um poema em silêncio. 

Por que eu tenho que esperar?

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Desconheço a autoria da Imagem.

O dia nunca me prometeu mais do que o próprio dia e suas banalidades, e as expectativas me frustram, me ferem por dentro. Por que eu deveria ser luz a guiar teus olhos, se a noite me é escura e fria? Tanta saudade, moço, que chega a ser covardia. Promete, promete pra mim um milagre. Vista em teu corpo a minha paisagem e viaje. Percorra-me em segredo. Consagra teu silêncio aos meus lábios. Forasteiro que és, te deixo vagar pelas planícies das minhas costas, sem rumo, sorrateiramente. Então, me diz: por que eu tenho que esperar, se te adorar é tão urgente?

 

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Desconheço a autoria da Imagem.

Passeio por uma estrada estreita, que dizem ser a minha vida. Mas eu não escolhi esse trajeto, inteiramente. Escolheram-no por mim, puseram meus pés para andar sem pausa e, desde então, sinto que caminho em círculos. Insatisfeita com muitas coisas, eu tive que aprender a sorrir, quando a vontade mesmo era de gritar e me desfazer em lágrimas. As poucas pessoas que amei, me fizeram chorar. Faz parte, disseram alguns. O tempo segue seu curso, mas eu não segui. Eu fiquei, feito árvore plantada no meio do caminho, que atrapalha a passagem, que tapa a visão de quem passa por mim e quer ver além…

Disseram-me, um dia, que eu existo, mas poucos são os que conseguem realmente me ver. Talvez o meu instinto bicho me torne invisível. Quase sempre é perigoso viver, então, quase sempre eu finjo que resisto. Passo grande parte do tempo plantando flores e me lavando das sujeiras a que me submeto. Mas nunca me sinto limpa o suficiente, o que me faz invejar os porcos. Eles não se incomodam com a imundície a que estão sujeitos e parecem felizes no meio disso. As aves me fascinam mais. Queria alcançar os céus, mas tenho raízes profundas, as quais me afeiçoei.

Olhar o céu me fascina, pois me sinto parte de algo muito maior do que a minha mísera existência. Faz-me parecer pequenamente importante, diante dos olhos do mundo. Considero que viver é uma viagem que ora demora a chegar, ora se chega muito depressa, nos fazendo perder a paisagem mais bonita. E eu perdi tantas! Algumas pessoas me tomam por impaciente, mas não percebem o meu canto lento e solitário. Canto, este, que eu mesma compus ao som do silêncio dos dias, que demoraram meses para passar.

Tenho uma paciência nata, dessas de colorir nuvens com a ponta dos dedos e depois dar a elas nomes inventados. Às vezes, penso que carrego comigo o peso de milhões de almas pacientes que, como a minha, trazem em si o peso do cotidiano embrutecido e dos sonhos perdidos. Por fim, descubro que viver é mesmo isto: pertencer a essa monotonia necessária e, ainda assim, sorrir, como se fosse perfeita essa felicidade inventada.