Cartas que não te enviarei #2

Para o moço dos olhos de abismo…

     Eu queria não ter mais nada a dizer, talvez facilitasse tudo, pelo menos para mim, mas não. Eu sempre preciso repetir o quanto te amo, te adoro. Às vezes, tenho a sensação de que quanto mais eu te penso, mais você também me sente em pensamento (ou com o coração?). Essa semana está sendo difícil, mais do que o normal (olha só, eu normalizando o sofrimento, de novo!). Tenho lido uns livros antigos, na verdade, relendo alguns, tudo para me manter ocupada com os pensamentos. Ou deveria dizer com os sentimentos? Eu não sei. É que você faz muita, muita falta!

     O trabalho tem me exigido tanto e fico me perguntando se eu vou conseguir levar a vida adiante. Eu nunca duvidei tanto de mim, como agora. E imagino que se estivesse tendo essa conversa contigo, você iria dizer “faz parte” e eu ia acreditar que está tudo bem, mesmo não parecendo estar. É que você tem um dom bonito de fazer tudo o que é difícil e esquisito ganhar um novo olhar: pacífico. Mais humano e, portanto, passível de erros e fracassos… e tudo bem. Eu gostava dessa sensação de ir ao fundo do poço e, depois, me sentir inteira de novo, numa conversa amena contigo, em alguma tarde de verão, como esta. Eu costumava ser mais otimista, não é? Perdão, mas algo aqui dentro se partiu por inteiro…

     Ainda tenho dificuldades para dormir e quase todas as noites sonho contigo. Nada demais, só sonhos bobos… (Os sonhos mais bonitos eu ainda os tenho acordada, parece que é difícil interromper o processo criativo de sonhar com o impossível…). Ah, estava quase me esquecendo: encontrei, no meio dos meus livro, aquele livro do Gabriel G. Márquez, que você gentilmente me emprestou, na última vez em que nos vimos. Agora não sei o que faço com ele… (Talvez um dia eu arrume coragem para te devolver).

Se cuida…

. EITA .

P.S.: Ainda te procuro, em cada rosto que vejo passar por mim pelas ruas…

Tu…

Jan Saudek1

Jan Saudek

Deita tua solidão no meu peito
e acolhe a minha saudade.
Ouça, também, o meu silêncio
que diz de todo o meu amor…

Tu, que és verbo e hemorragia,
essa sangria que não passa,
que não sara e que me custa
todo o meu sossego…

Tu, que és a criação de Eros,
a espera além da espera,
o pouso e as asas, depois do voo,
todo o meu desejo em flor.

Tu: meu único e infinito amor…

Tudo é tão distante…

Para onde vão os sonhos, quando são abandonados por pura covardia? Eu os sufoquei na calada da noite, onde todas as sombras pareciam demônios à espera de um único deslize meu. Eu tive tanto, tanto medo de tudo e acabei com as mãos cheias de nada. Eu devia saber, mas não me ensinaram como esquecer, como seguir sem olhar para trás, como não se arrepender. E eu me arrependo, todos os dias. Entendo que, às vezes, é tarde demais para voltar atrás. Tudo agora parece tão longe, tão distante é o som da tua voz. Será que alguém te perguntou como foi o seu dia? Temo que não…

13312905_1153543124695710_1432426780281080407_n

Desconheço a autoria da imagem.

Ensina-me a ser
sem ter-te aqui
tão perto do peito,
este céu branco
em pleno voo aberto…

Ajuda-me a viver
– posto que já desisto –
depois de ter tido
todos os dias vividos
ao pé do teu sorriso.

Habita de novo
o fundo dos meus olhos
e faça brotar das mãos
um jardim de esperanças…
É tudo o que eu preciso!

 

Cartas que não te enviarei #1

Para o moço dos olhos de abismo…

     Os dias estão intragáveis. Hoje fui ao médico e ele me disse para parar de tomar café. Contou que muita cafeína está me deixando ansiosa e o coração sente essa pressão toda. Coitado! Tarefa essa que não será cumprida, você me conhece, né? Eu só disse a ele que o café é a única coisa que me faz ficar consciente de todos os meus fracassos, mas que ainda me encoraja nas inúmeras fraquezas que tenho. E, depois, eu nasci ansiosa, isso não se muda com abstinência de café. Ele sorriu sem jeito. Pediu alguns exames para o coração, talvez imagine que algo não vá bem com ele.
Ah, se ele soubesse que aquele ruído estranho que ele ouviu, na hora do exame, eram os cacos do meu coração tilintando. Parece que carrego, agora, sinos no peito. A sorte é que ninguém escuta essa barulheira. Já eu, estou quase surda! Mal posso respirar que tudo se agita aqui dentro, parece que sai tudo do lugar! Se bem que, acho que nunca as coisas estiveram realmente no lugar, aqui dentro. Salvo quando eu te abraçava (lembra como eu ficava quietinha nessa hora?).
Na semana passada eu fui doar sangue. Pensei que, por um descuido do destino, pudesse te encontrar lá, deitado em uma maca, aquele olhar distante, perdido em algum canto da sala… O que será que ia acontecer? Por certo, você me ignoraria. Concordo, não é nada romântico, mesmo, um encontro assim, depois de tudo, e até que eu mereço o seu desprezo, depois de ir embora de novo. Às vezes, eu só queria um sinal de que está tudo bem contigo, de que a vida continua, para além de mim, de nós, e que está feliz de alguma forma. Eu sei que existem muitas formas de ser feliz e você é bom em encontrar jeito. Tu sempre deu jeito em tudo, né? Menos nos meus medos… rs (Desculpa, eu não poderia perder a piada). Se cuida…

. EITA .

P.S.: Sonhei contigo essa noite, de novo… Morfeu tá me sacaneando! Só pode!

Hoje, não…

10155080_819905331394624_6445546368542452053_n

Desconheço a autoria da imagem.

Hoje, não.
Pode ser qualquer outro dia
eu não me importo,
mas hoje, não.

Hoje eu só quero ficar perdida
entre um pensamento e outro,
beber um café forte
e ouvir algumas canções antigas.

Hoje, não.
Eu preciso me esquecer
das dores do mundo
e me concentrar apenas
nas minhas… são tantas!

(Você já teve
a consciência exata
da sua dor?
É um estranhamento
necessário…)

Hoje não dá.
Quero deixar o dia
passar lento por mim
(minuto a minuto)
para compreender melhor
a nomenclatura do fim.

Hoje, não!
Eu tenho que esperar
o momento preciso
em que o sol vai se pôr
em mim. Depois, nada!

Não consigo mais
fazer planos sem você aqui…

templo

Desconheço a autoria da imagem.

Então você me sorriu e me salvou de um mundo comum. Deixou no meu caminho um rastro de flores, feito um jardim plantado para florir em qualquer estação do ano. Que prova maior eu poderia ter de sua devoção? E eu, que sempre acreditei em milagres, pude ver um de tão perto, se materializando intensamente em abraços e beijos, a comunhão perfeita de dois corpos em estado de graça.

Quantas vezes rezei sobre o seu corpo? Mas o que seria Deus, senão, o amor encarnado? E lá estava você, me olhando de um jeito tímido e doce, como se fizesse uma prece interior, dizendo nas entrelinhas que me adorava tanto. Só eu ouvia! E bastava… Nos bastamos por muito, muito tempo.

Eu falei, não falei? Todo milagre é um presente.
E você sempre será o meu.

 

Seria fácil…

Seria fácil descobrir se posso ainda alcançar o infinito. Bastaria eu medir a profundidade dos dias, de todas as distâncias que teremos, de hoje até o fim de nossas memórias mais doces. Seria fácil perceber que eu não suportaria o infinito assim, e que ele perde, então, todas as suas propriedades curativas, se não estou ao teu lado. O infinito só faz sentido dentro do teu abraço. Agora, nem nós, nem laços. Só o vazio das tardes silenciosas. Um vento forte bagunçando os meus cabelos que, agora, tem o tom dos girassóis de Van Gogh e toda a sua tristeza azul. E pensar que colidimos como estrelas indefesas, embora de propósito, criamos um céu só nosso e todas aquelas constelações perfeitas. O uni-verso se fez poesia para os teus olhos e colheu de tua boca o riso mais puro. 

Percebeu? Eu nunca vou conseguir falar de amor sem citar o teu nome nas entrelinhas…

Te inventei numa canção…

A_world_out_of_tears_by_Prince_K.jpg

Prince K.

Meu bem, meu bem…
A água da chuva no telhado
é o que dá nome aos sons do mundo.
A estrada sumindo no reflexo do olho
diz mais de quem fica à beira do caminho
esperando alguém voltar.

Só a garganta adivinha o tamanho da sede.
Só a solidão sabe compor saudades.
Só o choro lava, de verdade, o fundo da alma.

Meu bem, quando chove,
me esqueço de quem sou.
Mas todo poeta mente,
quando sente falta
de um grande amor…
Ao poema só posso oferecer
o teu nome em chamas.

Estilhaços…

600312_378338605554823_54282641_n

Desconheço a autoria da Imagem.

Eu fiquei acordada a noite toda, não fechei os olhos sequer um minuto. A vida passando assim, em câmera lenta na minha mente, como em uma tela de cinema, mas só havia um espectador: o meu medo. Eu sei, eu tento lutar pelo o que é certo, mas o que é certo afinal de contas? A vida não vem com um script e eu não consigo mais ter uma imaginação assim tão fértil. Me conta, então, depois daquela esquina… o que há? O que tem por trás desses olhos que me olham sem me ver? Quem estará lá por mim quando eu acordar de um pesadelo qualquer? Como suportar as lágrimas, quando a imagem do seu rosto teimar em surgir no nada na minha frente? Eu era boa em acreditar que tudo ia ficar bem, você se lembra? Eu realmente era boa nisso, mas agora, agora eu não sei mais no que sou boa. Eu busco a paz e todo dia preciso vencer uma guerra aqui, dentro de mim. Então, que paz é essa que eu cultuo? A que Deus eu sirvo? Eu quero tanto a minha vida de volta… aquela em que você não existia, porque assim eu não saberia o quanto posso ser feliz. E tudo seria tão fácil… Mas agora tudo se partiu em milhares de minúsculos pedaços. E eu não consigo mais juntar o que sobrou de mim.