Cartas que não te enviarei #1

Para o moço dos olhos de abismo…

     Os dias estão intragáveis. Hoje fui ao médico e ele me disse para parar de tomar café. Contou que muita cafeína está me deixando ansiosa e o coração sente essa pressão toda. Coitado! Tarefa essa que não será cumprida, você me conhece, né? Eu só disse a ele que o café é a única coisa que me faz ficar consciente de todos os meus fracassos, mas que ainda me encoraja nas inúmeras fraquezas que tenho. E, depois, eu nasci ansiosa, isso não se muda com abstinência de café. Ele sorriu sem jeito. Pediu alguns exames para o coração, talvez imagine que algo não vá bem com ele.
Ah, se ele soubesse que aquele ruído estranho que ele ouviu, na hora do exame, eram os cacos do meu coração tilintando. Parece que carrego, agora, sinos no peito. A sorte é que ninguém escuta essa barulheira. Já eu, estou quase surda! Mal posso respirar que tudo se agita aqui dentro, parece que sai tudo do lugar! Se bem que, acho que nunca as coisas estiveram realmente no lugar, aqui dentro. Salvo quando eu te abraçava (lembra como eu ficava quietinha nessa hora?).
Na semana passada eu fui doar sangue. Pensei que, por um descuido do destino, pudesse te encontrar lá, deitado em uma maca, aquele olhar distante, perdido em algum canto da sala… O que será que ia acontecer? Por certo, você me ignoraria. Concordo, não é nada romântico, mesmo, um encontro assim, depois de tudo, e até que eu mereço o seu desprezo, depois de ir embora de novo. Às vezes, eu só queria um sinal de que está tudo bem contigo, de que a vida continua, para além de mim, de nós, e que está feliz de alguma forma. Eu sei que existem muitas formas de ser feliz e você é bom em encontrar jeito. Tu sempre deu jeito em tudo, né? Menos nos meus medos… rs (Desculpa, eu não poderia perder a piada). Se cuida…

. EITA .

P.S.: Sonhei contigo essa noite, de novo… Morfeu tá me sacaneando! Só pode!

Hoje, não…

10155080_819905331394624_6445546368542452053_n

Desconheço a autoria da imagem.

Hoje, não.
Pode ser qualquer outro dia
eu não me importo,
mas hoje, não.

Hoje eu só quero ficar perdida
entre um pensamento e outro,
beber um café forte
e ouvir algumas canções antigas.

Hoje, não.
Eu preciso me esquecer
das dores do mundo
e me concentrar apenas
nas minhas… são tantas!

(Você já teve
a consciência exata
da sua dor?
É um estranhamento
necessário…)

Hoje não dá.
Quero deixar o dia
passar lento por mim
(minuto a minuto)
para compreender melhor
a nomenclatura do fim.

Hoje, não!
Eu tenho que esperar
o momento preciso
em que o sol vai se pôr
em mim. Depois, nada!

Não consigo mais
fazer planos sem você aqui…

templo

Desconheço a autoria da imagem.

Então você me sorriu e me salvou de um mundo comum. Deixou no meu caminho um rastro de flores, feito um jardim plantado para florir em qualquer estação do ano. Que prova maior eu poderia ter de sua devoção? E eu, que sempre acreditei em milagres, pude ver um de tão perto, se materializando intensamente em abraços e beijos, a comunhão perfeita de dois corpos em estado de graça.

Quantas vezes rezei sobre o seu corpo? Mas o que seria Deus, senão, o amor encarnado? E lá estava você, me olhando de um jeito tímido e doce, como se fizesse uma prece interior, dizendo nas entrelinhas que me adorava tanto. Só eu ouvia! E bastava… Nos bastamos por muito, muito tempo.

Eu falei, não falei? Todo milagre é um presente.
E você sempre será o meu.

 

Seria fácil…

Seria fácil descobrir se posso ainda alcançar o infinito. Bastaria eu medir a profundidade dos dias, de todas as distâncias que teremos, de hoje até o fim de nossas memórias mais doces. Seria fácil perceber que eu não suportaria o infinito assim, e que ele perde, então, todas as suas propriedades curativas, se não estou ao teu lado. O infinito só faz sentido dentro do teu abraço. Agora, nem nós, nem laços. Só o vazio das tardes silenciosas. Um vento forte bagunçando os meus cabelos que, agora, tem o tom dos girassóis de Van Gogh e toda a sua tristeza azul. E pensar que colidimos como estrelas indefesas, embora de propósito, criamos um céu só nosso e todas aquelas constelações perfeitas. O uni-verso se fez poesia para os teus olhos e colheu de tua boca o riso mais puro. 

Percebeu? Eu nunca vou conseguir falar de amor sem citar o teu nome nas entrelinhas…

Te inventei numa canção…

A_world_out_of_tears_by_Prince_K.jpg

Prince K.

Meu bem, meu bem…
A água da chuva no telhado
é o que dá nome aos sons do mundo.
A estrada sumindo no reflexo do olho
diz mais de quem fica à beira do caminho
esperando alguém voltar.

Só a garganta adivinha o tamanho da sede.
Só a solidão sabe compor saudades.
Só o choro lava, de verdade, o fundo da alma.

Meu bem, quando chove,
me esqueço de quem sou.
Mas todo poeta mente,
quando sente falta
de um grande amor…
Ao poema só posso oferecer
o teu nome em chamas.

Estilhaços…

600312_378338605554823_54282641_n

Desconheço a autoria da Imagem.

Eu fiquei acordada a noite toda, não fechei os olhos sequer um minuto. A vida passando assim, em câmera lenta na minha mente, como em uma tela de cinema, mas só havia um espectador: o meu medo. Eu sei, eu tento lutar pelo o que é certo, mas o que é certo afinal de contas? A vida não vem com um script e eu não consigo mais ter uma imaginação assim tão fértil. Me conta, então, depois daquela esquina… o que há? O que tem por trás desses olhos que me olham sem me ver? Quem estará lá por mim quando eu acordar de um pesadelo qualquer? Como suportar as lágrimas, quando a imagem do seu rosto teimar em surgir no nada na minha frente? Eu era boa em acreditar que tudo ia ficar bem, você se lembra? Eu realmente era boa nisso, mas agora, agora eu não sei mais no que sou boa. Eu busco a paz e todo dia preciso vencer uma guerra aqui, dentro de mim. Então, que paz é essa que eu cultuo? A que Deus eu sirvo? Eu quero tanto a minha vida de volta… aquela em que você não existia, porque assim eu não saberia o quanto posso ser feliz. E tudo seria tão fácil… Mas agora tudo se partiu em milhares de minúsculos pedaços. E eu não consigo mais juntar o que sobrou de mim.

1544359_298226713662261_1192601143_n

Desconheço a autoria da imagem.

Desinventar as estradas
que vão dar direto no teu peito.
Dividir a palavra abraço
até que ela caiba, miúda,
em uma só sílaba estática.
Reter nos lábios o verbo amar
e nomear o teu sorriso
com outro nome: espinho,
fenda, abismo, dor?
Perdão, amor.

Não sei falar outro idioma
quando teus passos
se distanciam dos meus…

426401_490318011016802_2125846232_n

Desconheço a autoria da Imagem.

Ontem eu não pude encarar a lua. Ela estava lá, tão cheia de si, tão esplêndida, entre o escuro e o nada… e eu? Eu aqui, pensando que talvez teus olhos estivessem pousados nela também (a pensar em mim?) e, por raiva ou medo, não quis que os nossos olhos se cruzassem de novo. Tão longe, mas tão perto, sempre. A imensidão do céu soturno me lembrou do quanto sou pequena e tola, do quanto ainda te amo, não importa a fase da lua.

Em mim…

7fac53320500174fb638fc1d5274e8f2

Desconheço a autoria da imagem.

Posso escolher partir
e, mesmo assim, você estará comigo:
no doce canto do pássaro,
nas primeiras horas do dia;
na minha forma de observar o mundo;
no pouco de esperança que carrego;
nas fagulhas do tempo – que passa lento
quando você não está comigo;
nas canções que são nossas
e em tudo o que compartilhamos.

Você está em mim, no sorriso manso
que trago no rosto, pela certeza
do reencontro… Eu vou embora, de novo,
mas você, você sempre fica em mim.

O amor é isto:

10917901_436958703122850_4206382620379668470_n

Desconheço a autoria da imagem.

Uma história inteira feita de adjetivos, conjugados como se fossem verbos no modo indicativo. Certezas que ela desejava ter, mas desejos não significam (quase) nada. Tinha nos ouvidos, ainda, o som de algodão daquela voz de entardecer. Escurecia por dentro, toda vez que pronunciava o nome dele em segredo, numa ausência de sol que fazia medo.

Cantava alto para fingir que não estava só, mas a solidão fazia nascer nela, flores amarelas. Não era uma cor bonita, mas estava cansada demais para criar novas ilusões. Sorriu triste e pensou na falência múltipla dos sentidos. Fechou os olhos e se concentrou numa chuva de ruídos que vinha da rua. Imaginou ser barulho de cachoeira ou algo assim e, por um minuto, sentiu-se feliz de novo. Depois, abandonou-se num choro sem precedentes, até se lembrar de novo daqueles lindos olhos escuros. Sorriu por dentro e se iluminou, como se um raio a atingisse em cheio.

O amor é isto: uma incompetência absurda para desistir.