Creio…

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Desconheço a autoria da imagem.

Ouço o ventre do Nada.
E não é fácil embrionar versos,
depois de organizar os orgasmos
contidos em cada sílaba
da palavra saudade.

Parir parágrafo por parágrafo
e transformá-los em pássaros.
Eis o risco: não sucumbir
ao fluxo sanguíneo de um poema.

Alguns dirão que é um exercício inútil.
Outros, que é só bruxaria.
Eu apenas creio nos átomos
que sustentam cada palavra,
transformando-a em vida
no tecido da Poesia.

Vaga o lume…

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Desconheço a autoria da imagem.

Vaga-lumes são poemas
que recitam luz.
Depois de mergulhar
nas sombras do esquecimento,
qualquer faísca é sol.

(Era um sonho?)

Pescou palavras
atoladas em metáforas até o joelho.
Sorriu do absurdo que é sonhar.
Agarrou o verso pela cintura
e esqueceu da luminescência de tudo.

Carta

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“A um amor que não existiu
senão nos meus sonhos…”

       Eu devia começar perguntando como você está, o que tem feito na minha ausência, ou, sei lá, se está melhor sem mim. Mas que bobagem, não é mesmo? Vou direto ao assunto, porque compreendi que contigo as coisas precisam ser mais diretas e um tanto brutas. Eu nunca vou conseguir te perdoar pela forma estúpida com que você me tirou da sua vida. Sim, você me arrancou da sua vida como se faz a uma planta que ingenuamente estabeleceu suas raízes firmes em um solo ingrato. Eu nunca vou compreender o motivo de tanta raiva.

       Por que você apenas não foi embora, como das outras vezes, quando me virava as costas e partia? De onde veio essa necessidade mórbida de me desferir palavras tão cruéis e vazias de significado para mim. E tudo o que me vem à mente é que não havia amor. Talvez nunca tenha sido amor para você. E tudo bem, sabe? Eu nem sei mais quem é você ou se um dia eu realmente soube quem você era. E se antes o que me movia era a saudade, hoje, o que me desperta todas as manhãs é um imenso arrependimento por tê-lo deixado entrar em minha vida.

      Por que diabos eu fui entregar meu coração a um completo desconhecido? Como pude acreditar que você era gentil e que se importava comigo, que seria cuidadoso com o que eu sentia? Ingenuidade minha, eu sei, afinal, você me alertou tantas e tantas vezes que você não era essa pessoa incrível que eu via. Você me avisou nas entrelinhas, estava tudo lá. A indiferença nas palavras, quando eu mais precisava de ti, e o silêncio quando tudo o que eu queria era te ouvir me contar do seu dia.

       Ficou aquela sensação ruim de que eu não fiz parte de nada, afinal. Eu era só uma válvula de escape para os dias de tédio, não era? Sim, eu era. E agora eu sei que o amor tem muitas faces, mas que nenhuma delas se parece com a sua. E esse pensamento me fez perceber o quanto eu fui tola por acreditar que tínhamos algo especial. Será que todo amor, afinal, é isto: falsas ilusões, expectativas não alcançadas, sonhos enterrados e aquele maldito gosto amargo de arrependimento?

       Eu queria terminar essa carta dizendo que eu te odeio, por tudo o que fez comigo, mas eu jamais conseguiria ser como você. Então, eu vou terminar dizendo que mesmo depois de tudo o que você me fez sofrer, guardo de ti os sentimentos mais bonitos. E é por isso que eu não quero mais existir…

Do que é efêmero…

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Desconheço a autoria da Imagem

Enquanto tomava seu café amargo pensou na fragilidade da vida. O tempo a tudo transforma em sonho e o sono é passageiro. Irritou-se com a fugacidade das coisas. Já pressentia o porquê de, nos últimos dias, as manhãs acordarem sem cor. A natureza celebrava sem graça cada novo dia que rompia num quase choro silencioso de pássaros pelo ar. O mundo continuava sua marcha veloz, os carros nas ruas, os bancos lotados, as pessoas sem rumo, pra lá e pra cá, numa rotina incansavelmente tola. E ela só pensava nas sementes que não iam mais brotar, no curso que a água deixava de tomar, na brutalidade dos dias sem aqueles que amamos à nossa volta. E o mundo não para! E temos que fingir que não vemos que tudo se desfaz num piscar de olhos, enquanto alimentamos com migalhas de alegria os pássaros famintos que nos corroem o estômago. Depois de sentir o gosto amargo do dia, chegou à conclusão de que, no final, tudo acaba mesmo em saudade. Saudade que só o tempo há de amenizar com as suas brutas e ásperas mãos. Mas o tempo, o tempo é sonho, e o sono é pouco.

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Desconheço a autoria da Imagem.

Qual seria a canção
que os marinheiros
entoam ao verem
– de longe –
um lugar para ancorar,
depois de meses no mar?

Que som tem o barco
quando se choca
nas pedras escuras
do penhasco?
Qual a cor da morte,
quando a vida se mostra além?

Asas…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Olhou através da janela do carro em movimento. As árvores correndo em outra direção, embora estáticas. Parecia que as raízes haviam ganhado asas. Pensou na contradição do que acabara de sentir: árvores com asas; ela com raízes profundas. Mas onde exatamente ela havia se prendido? Que chão seria esse, que ela não conseguia sentir, mesmo descalça, mesmo insistindo tanto em perceber o que estava debaixo dos seus pés. A cabeça sempre no alto, buscando a copa das árvores, um pássaro perdido por entre os edifícios, uma nuvem vagando sozinha no azul distante do céu. E ela sabia muito bem onde gostaria de ter criado suas raízes…

 

Ontem…

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Desconheço a autoria da Imagem

Ontem eu tive a sensação
de que você pensava em mim.

Talvez porque a chuva
– incessante –
cantasse seu nome
ao escorrer pela janela.
Ou, talvez porque eu,
boba que sou,
apenas quisesse muito isso…

Eu passei o dia
com você no pensamento
e tantas lembranças boas…
Aquelas lembranças!
E não foi nada bom
acordar assim
os meus sentidos.

E eu, que te perdi tantas vezes,
ainda não me acostumei a isto.

Quem se importa?

Card Dor

Olhou-se por um longo tempo no espelho, depois concluiu que aquelas marcas de expressão, perto dos olhos, eram novas. Elas não estavam ali ontem. Ou estavam? Quem poderia saber? E quem realmente se importaria com isso?

Passou a mão pelos cabelos e insinuou um penteado novo, mas desistiu. Forçou um sorriso para si mesma, pois sabia que, a essa altura da vida, só ela mesma poderia dar a si um presente assim, logo pela manhã, mas disse a si mesma que de nada adiantaria ser um sorriso falso desses.

Então pegou o lápis e a sombra, dedicou um tempo à área dos olhos. O intuito era disfarçar o inchaço e esse vermelho que faz fundo ao verde do olhar. Porém, antes de finalizar, tudo já estava borrado. Recomeçou sem muito ânimo. Ainda tinha certa paciência com seus erros. Ela sempre soube que tinha nascido para errar muito mais do que acertar na vida, mas até quando?

Tentou agora dar vida à boca. Um delineador, um batom vermelho e… voilà. A máscara está pronta para seguir com o dia e seus afazeres infinitos. E ninguém nunca desconfiaria que ela, por trás daquela cara pintada e da falsa euforia, estaria morta por dentro. 

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Desconheço a autoria da Imagem.

Desinventar o seu nome, quando qualquer partícula de nunca mais se atrever a cair nos olhos, inundando o meu vestido. Recriar os cenários paradisíacos da sua boca, enquanto escuto Joss Stone no volume máximo. Perpetuar o seu cheiro nas flores do jardim, que ainda não plantei. Reter o contentamento que a sua imagem me provoca, guardando tudo em uma caixa suspensa no tempo, como os minutos guardam as horas e as nuvens escuras a tempestade. Compreender, ainda que com dificuldade, as razões pelas quais não nos entendemos mais. Manter o silêncio e resistir à ausência, mesmo que isso signifique o fim.

Já não suportava te perder assim, aos poucos…

Era de amor…

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Desconheço a autoria da Imagem.

Eu sei que deixei morrer o jardim que você me deu. Creio que nunca mereci o dom para cuidar dessas flores. Sei dos dias ensolarados que te prometi e não cumpri. Da perda do desejo em dias que nascem assim, já mortos, como este.

Eu só queria te contar desses dias em que sua ausência tem o peso do céu, quando traz a tempestade mais escura. São como todas as verdades que você já me disse, brincando.

E tudo o que eu sinto, agora, é que me importo com as palavras que ficaram enterradas no fundo dos nossos olhos. Eu sei que era de amor que elas falavam…